BERLIM COSMOPOLITA E SINGULAR

A cidade que já foi separada por um muro hoje celebra uma união de culturas.

Vanguardista desde a queda do muro, a cidade de Berlim, hoje, é o epicentro de artistas de toda a Europa que trocaram suas cidades pela efervescência cultural que corre solta por suas ruas e avenidas. Mistura talvez seja a palavra que melhor reflete o espírito da capital alemã, já que as diversas procedências de seus três milhões de habitantes configuram um clima de convivência entre diferentes. Assim como as pessoas, a arquitetura da terceira maior cidade da Europa também é um grande entreposto de estilos e ideologias.

Desde o século XIII, a cidade teve cinco grandes e marcantes governos que, cada um à sua maneira, marcaram sua paisagem. Os traços deixados pelo Império Germânico, República de Weimar, Partido Nacional Socialista Alemão (Nazista) e Alemanha Oriental convivem com as características da agora Alemanha reunificada. Cada um desses governos promoveu programas de construção e urbanização bastante ambiciosos, fazendo com que Berlim seja, provavelmente, a cidade com maior diversidade de estilos arquitetônicos no mundo.

Os preservados prédios góticos e barrocos, que hoje abrigam parte dos incontáveis museus berlinenses, aparecem lado a lado com construções opulentas desenhadas durante o III Reich. Os enormes blocos de pedra dessas obras, projetadas para durarem milênios, serviriam para testemunhar a suposta grandeza nazista do passado. Hitler tentou transformar a cidade em uma nova Roma, que seria comparável à capital do antigo império. Chegou a construir o estádio de Nurembergue, para 400 mil pessoas, que hoje está em maior grau de decadência que o Coliseu romano. A fixação por Roma já havia sido vista quando o imperador Guilherme II construiu, em 1905, a Berliner Dom, que deveria competir visualmente com a Basílica de São Pedro do Vaticano.

Com o muro e a Alemanha Oriental, parte da cidade parou no tempo enquanto a outra parte se modernizou. Depois da queda do Muro, em 1989, a cidade se unificou e muitas famílias deixaram seus antigos prédios vazios e em mal estado de conservação. A chance de morar em uma cidade onde tudo estava acontecendo, por preços baixos, atraiu então artistas jovens do resto da Europa para o antigo lado oriental, que aos poucos foi se restaurando. Ainda hoje, é praticamente impossível fotografar a cidade sem que algum vestígio de obra seja parte do cenário.

Não demorou até que surgissem na cidade enormes construções de vidro, características do século XXI. A esplanada das embaixadas, em frente ao parque Tiergarten, é uma reunião de edifícios dos mais importantes arquitetos mundiais contemporâneos, como Renzo Piano e o Arata Isozaki. No centro antigo da cidade está Potsdamer Platz, uma praça riscada pelo caminho de paralelepípedos que marca onde ficava parte do muro. Nessa praça é possível carimbar, de brincadeira, o passaporte com o brasão da Alemanha Oriental. Hoje, Potsdamer Platz é sede de complexos de entretenimento e de comércio, com destaque para o Sony Center. Com 26 mil metros quadrados, projetado pelo alemão Helmut Jahn e edificado entre 1996 e 2000, esse complexo tem cinemas, museu e restaurantes. Ao lado do Sony Center se encontra também o hotel Grand Hyatt, projetado pelo espanhol José Rafael Moneo, ganhador do prêmio Pritzker.

O melhor retrato da mistura entre o novo e o moderno está no prédio do Parlamento alemão. Construído no século XIX e reformado algumas vezes desde então, sempre mantendo seu estilo original, o Reichstag, próximo ao Portão de Brandemburgo, ganhou uma cúpula de vidro idealizada pelo famoso arquiteto britânico Sir Norman Foster, que representa a transparência do atual governo. Possui, em seu centro, uma coluna coberta por espelhos e uma rampa em espiral que vai até o topo, de onde se pode ver boa parte da região central da cidade. Para a sorte de quem está na cidade, o local é aberto ao público, que pode apreciar do alto toda a beleza da miscigenação de estilos de Berlim.

BERGHAIN, O MAIS FAMOSO CLUB DE BERLIM.

Estilo na noite alemã.

Ainda que grandes e modernos prédios de vidro sejam parte da arquitetura contemporânea de Berlim, a cidade festeja também a existência de enormes galpões e fábricas desativadas. É em lugares como esses que as novas galerias de arte, clubs e bares estão abrindo suas portas para receber os descolados jovens habitantes e turistas, que querem de alguma forma experimentar o denso passado berlinense. um exemplo é o club Berghain, onde uma usina desativada se torna pista de dança aos finais de semana para cerca de 1.500 pessoas. o local tem pé direito de 18 metros e é um grande cubo de concreto e aço aparentes, com características de uma obra inacabada e decoração mínima. se essa falta de acabamento o deixa com cara de underground, é também o fator que o faz ser considerado cool. suas festas são conhecidas pelas extensas horas de duração, e ainda que seja grande os hostess barram boa parte das pessoas apenas por considerarem que elas não têm o estilo do lugar, tornando a entrada uma loteria.